Dilemas Atuais para a Prática Médica em Ultra-Sonografia

Publicado em 1 de June de 2009 - 1,210 visualizações

Por Dr. Harley De Nicola

Nos últimos anos o desenvolvimento tecnológico tem influenciado diretamente a área de diagnósticos por imagem. A carga de novas informações é enorme; surgem novos métodos de diagnóstico e novos conceitos são introduzidos em uma velocidade assustadora. Com isso o profissional da área de diagnóstico por imagem necessita de aperfeiçoamento e especialização constante para cada método utilizado no diagnóstico por imagem. Além desta massacrante carga de novas informações tecnológicas, particularmente o profissional que atua na área de ultra-som deve preocupar-se também com os relacionamentos interpessoais. Neste caso, o relacionamento se dá de maneira dupla, ou seja, além de atender ao colega que solicitou o exame, há o contato direto com o paciente, caracterizando uma relação médico-paciente diferente das outras áreas de diagnóstico.
Como executar uma boa prática médica dentro destes parâmetros sem tornar-se simplesmente um “fotógrafo” é uma questão que todos os ultra-sonografistas deveriam tentar responder.

O exame ultra-sonográfico é um ato médico por conceito e sua execução depende de conhecimentos específicos e integrados em medicina além do conhecimento técnico relativo ao manuseio do equipamento para uma boa obtenção de imagens. Além disso o profissional deve ter uma sólida formação para interpretação destas imagens para poder redigir laudos satisfatórios às expectativas do médico solicitante.

Para que este conjunto de fatores resulte em benefício real dos pacientes deve-se respeitar algumas regras básicas. E aí começam os problemas.

É de suma importância iniciar o exame ecográfico com uma completa anamnese para que antes de “encostar” o transdutor no paciente possamos ter hipóteses diagnósticas que nos orientem na procura de melhores imagens e que nos ajudem num raciocício clínico para uma melhor interpretação das imagens obtidas. Certamente isso leva algum tempo, e muitos profissionais são pressionados pelas clínicas e pelos hospitais a realizarem a maior quantidade de exames possíveis em um menor espaço de tempo, obviamente por questões econômicas. Certamente aumenta-se muito as chances de erros ou de exames falsos negativos.

A história clínica torna-se ainda mais essencial na medida em que alguns pedidos médicos são geralmente muito pobres em informações ou apresentam informações errôneas simplesmente para justificativas junto aos convênios e muitas vezes não contém ao menos uma hipótese diagnóstica. Como exemplo posso citar um caso onde a hipótese diagnóstica escrita no pedido era de “litíase vesicular” e a paciente era colecistectomizada.

Seria indicado muitas vezes um exame físico rápido realizado pelo ultra-sonografista antes do exame ecográfico. Como por exemplo podemos citar o toque retal antes de um ultra-som prostático ou palpação mamária para detecção de nódulos antes do exame ecográfico, palpação abdominal e outros. Novamente incorremos no problema “tempo” e pior do que isso: o número de reclamações por parte dos pacientes e até de processos por “abuso” é crescente. Muitos profissionais não querem “colocar a mão” nos pacientes para evitar este tipo de problema. Acho que isso poderia ser resolvido na maioria dos casos com uma boa conversa explicativa tanto do médico que solicita o exame como do ultra-sonografista e também com a presença de uma assistente de sala em todos os exames.

Um outro tipo de problema freqüente é a indicação errada do exame ecográfico. Por exemplo, muitas vezes somos solicitados a avaliar espessura do eco endometrial por via abdominal em detrimento da via vaginal ou a realizar punção de microcalcificações mamárias dirigidas por ultra-som . Isso acontece muitas vezes por problemas burocráticos relacionados a não liberação de guias pelos convênios, que tendem a autorizar apenas os exames mais simples e mais baratos, nem sempre respeitando a solicitação original do médico.

Do exposto acima surge um outro questionamento: podemos sugerir a realização de um outro exame diagnóstico em nossos laudos?

Neste caso minha opinião é incisiva e respaldada pelo Colégio Brasileiro de Radiologia: sim, podemos.

O médico solicitante muitas vezes desconhece os melhores métodos diagnósticos para determinadas patologias e a sugestão de outro tipo de exame, desde que indicada com critérios e justificada, não caracteriza falta ética, pois o principal objetivo é beneficiar o paciente.

Por último, talvez a questão mais difícil e de menor consenso: Podemos relatar detalhes do exame para o paciente ou toda e qualquer informação deve ser dada pelo médico solicitante?

Responder esta questão não é fácil. O colega confiou-nos o paciente para que com nossos conhecimentos possamos ajudá-lo a elucidar o diagnóstico e qualquer informação intempestiva ou mal interpretada pelo paciente poderia ter relação direta com o prognóstico e com a conduta terapêutica, que cabe exclusivamente ao médico solicitante. Acredito que a palavra chave seria bom senso. Nós, imagenologistas, devemos nos ater somente à melhor descrição possível das imagens encontradas procurando evitar palavras diretas ao paciente, principalmente referindo-se à condutas e tratamentos, pois o médico solicitante geralmente possui o melhor conhecimento para tal, além de conhecer melhor o paciente. No entanto, também somos médicos e devemos o mínimo de respeito ao paciente que está na nossa frente e muitas vezes ansioso por nossa resposta naquele momento. Como omitir de uma mãe, por exemplo, o diagnóstico de um óbito fetal?

Para ajudar nestas questões seria muito recomendável na prática diária um bom relacionamento pessoal ou mesmo telefônico entre o médico ultra-sonografista e o médico solicitante. Isso possibilitaria uma orientação mútua e certamente o paciente seria beneficiado.

Foram apresentados aqui alguns dos principais dilemas diários para a difícil prática médica do ultra-sonografista. Creio que estas questões deveriam ser mais discutidas por toda a classe médica e em especial pelos profissionais diretamente envolvidos. Deste modo estaríamos efetivamente lutando para melhorar a qualidade de vida e de trabalho dos ultra-sonografistas, evitando assim o aumento do número de casos de lesões músculo-esqueléticas e também de problemas de ordem psiquiátrica entre estes profissionais, comprovados por recentes estudos.


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