Contribuição da ultra-sonografia tridimensional para avaliação do osso nasal fetal no primeiro trimestre da gestação

Publicado em 2 de June de 2009 - 1,717 visualizações

Por Dr. Cleisson Fábio A. Peralta

Os ossos nasais fetais podem ser identificados por meio da ultra-sonografia convencional no primeiro trimestre da gestação. Para tanto, um treinamento específico deve ser realizado, com a finalidade de que o ultra-sonografista se familiarize com a obtenção do corte sagital mediano adequado da face fetal para a perfeita visibilização desses ossos.

O atraso no processo de calcificação dos ossos nasais fetais está relacionado a um aumento de risco para trissomias, em especial a do cromossomo 211,2. Foi demonstrado que, em gestações de 11 a 14 semanas, a associação da medida da translucência nucal à avaliação dos ossos nasais fetais proporciona uma taxa de detecção de casos de Síndrome de Down de aproximadamente 90%3.

Sabe-se que a porção óssea do nariz é composta por dois ossos que se unem na linha média formando uma sinostose, e que, durante o período de 11 a 14 semanas de gestação, esta sutura pode não estar completamente fechada. Portanto, seria possível que, em um corte ultra-sonográfico sagital estrito do perfil fetal, fosse obtida imagem sugestiva de ausência dos ossos nasais (Falso positivo para osso nasal ausente). Com o intúito de abordar este problema, Peralta et al.4 realizaram um estudo para a avaliação ultra-sonográfica tridimensional do perfil fetal em 450 gestantes.

O objetivo inicial do trabalho foi detectar, com a utilização do modo multiplanar da ultra-sonografia tridimensional, a presença de sinostose não calcificada, e verificar se este achado poderia levar ao diagnóstico errôneo de ausência de osso nasal. Observou-se que em 421 (93.6%) dos 450 casos os ossos nasais foram considerados presentes durante avaliação ultra-sonográfica convencional. Usando o modo multiplanar da ultra-sonografia tridimensional, em 83 (19.7%) destes 421 fetos foi detectado um espaço não calcificado correspondente à sinostose nasal e em 36 (43.4%) destes casos foi possível demonstrar ausência do osso nasal em um plano sagital estrito da face, passando pela sinostose (Figura 1).

Em 29 (6.4%) dos 450 casos, os ossos nasais estavam ausentes durante avaliação ultra-sonográfica bidimensional. Dentre estes, a avaliação tridimensional possibilitou verificar que, na verdade, havia ausência de ambos os ossos nasais em 25 (86.2%) casos e ausência de somente um dos ossos nasais em quatro (13.8%). Todos os casos do estudo foram submetidos à avaliação cariotípica, sendo que 404 fetos tinham cariótipos normais e 46 tinham aberrações cromossômicas, as quais incluíram 31 casos de trissomia do cromossomo 21. Dentre os fetos com cariótipos normais, três (0.7%) tiveram ausência uni ou bilateral dos ossos nasais. Em contrapartida, ausência uni ou bilateral dos ossos nasais foi observada em 19 (61.3%) dos fetos com trissomia do cromossomo 21 e em 7 (46.7%) dos fetos com outras anomalias cromossômicas.

A importância deste estudo reside no fato de que a presença de espaço não calcificado na sinostose nasal durante o exame morfológico de primeiro trimestre pode ser encontrada em aproximadamente 20% dos fetos e em 40% destes uma imagem sagital estrita da face pode levar a falsa impressão de osso nasal ausente. No entanto, devido às dimensões reduzidas deste espaço, qualquer movimento látero-lateral durante a avaliação ecográfica convencional permite a identificação do osso nasal, evitando-se diagnósticos falso-positivos.

Figura 1. Imagens transversal (esquerda) e sagital mediana (direita) da face fetal com o modo multiplanar da ultra-sonografia tridimensional. As setas brancas indicam os ossos nasais e a seta amarela o espaço entre eles.

Referências Bibliográficas

1. Cicero S, Curcio P, Papageorghiou A, Sonek J, Nikolaides KH. Absence of nasal bone in fetuses with trisomy 21 at 11-14 weeks of gestation: an observational study. Lancet 2001; 358:1665-7.

2. Cicero S, Rembouskos G, Vandecruys H, Hogg M, Nicolaides KH. Likelihood ratio for trisomy 21 in fetuses with absent nasal bone at the 11-14-week scan. Ultrasound Obstet Gynecol 2004; 23:218-23.

3. Cicero S, Bindra R, Rembouskos G, Spencer K, Nicolaides KH. Integrated ultrasound and biochemical screening for trisomy 21 using fetal nuchal translucency, absent fetal nasal bone, free ß-hCG and PAPP-A at 11 to 14 weeks. Prenat Diagn 2003; 23: 306-10.

6. Peralta CFA, Falcon O, Wegrzyn P, Faro C, Nicolaides KH. Assessment of the gap between the fetal nasal bones at 11-13+6 weeks of gestation by 3D ultrasound. Ultrasound Obstet Gynecol 2005;25:464-7.


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